Archive for the ‘Desenvolvimento’ Category

Incertezas

outubro 2, 2011

Reproduzimos hoje, integralmente, a opinião de Fernando Henrique Cardoso sobre a crise mundial, publicada neste domingo em inúmeros jornais, sites, blogs etc…

Para quem já sofreu as consequências de várias crises financeiras internacionais, não chega a ser surpreendente o que ocorre nos países mais desenvolvidos da Europa, contagiados pela crise financeira que tem origem nos menos desenvolvidos da região.

No passado recente, Bancos Centrais e ministros de finanças dos primeiros procuravam mostrar que não havia como equiparar a situação de seu país com a tragédia que ocorrera noutro. As situações fiscais não seriam as mesmas, a proporção da dívida com relação ao PIB não era tão grande assim, num caso a dívida interna estava nas mãos de agentes financeiros internacionais e se denominavam em dólares, noutros, ao contrário, eram os poupadores nacionais que emprestavam aos governos locais em moeda do país, etc. Mas, quase sempre, havia uma variável crítica: o mutável estado de confiança dos agentes do mercado financeiro internacional. Quando se instalava a desconfiança quanto à solidez das contas fiscais e/ou externas de um determinado grupo de países de alguma maneira correlacionados, os argumentos sobre as diferenças perdiam força. E viravam pó, se surgisse o fantasma do default – da moratória, como se dizia.

O receituário do FMI tampouco era atento às diferenças. Exigia sempre mais do mesmo, às vezes não sem alguma razão: ajuste fiscal, reforma patrimonial do Estado etc. Mas fazia ouvidos moucos à demanda por maior regulação do mercado financeiro internacional. Era o que pedíamos à comunidade internacional os que dirigimos os países naquela época de aflições.

Reclamávamos maior regulação internacional para conter a especulação contra as moedas nacionais, ou seja: a criação de fundos de socorro maiores e de mais fácil acesso, o fortalecimento da base financeira do FMI e o aperfeiçoamento de suas práticas. Era preciso maior rapidez no atendimento dos países com crise de liquidez e menos “condicionalidades”, ou seja, as imposições restritivas à política econômica e fiscal dos países devedores, pois se o ajuste fiscal passasse de certo ponto impediria a retomada de crescimento econômico. Para financiar os novos fundos, alguns de nós relançamos a ideia de uma Taxa Tobin, apesar dos reclamos contínuos dos especialistas quanto aos efeitos desse tipo de imposto.

Alguns países emergentes tiveram melhores condições para negociar com o FMI, como foi o caso do Brasil, que havia realizado o Plano Real por sua conta e risco, sem o aval do Fundo. Com o Plano Real modificamos drasticamente as bases da política fiscal, saneando as finanças da União e as dos estados, impusemos regras severas ao sistema financeiro, seguindo as recomendações de Basileia para controlar a “alavancagem”, isto é, os empréstimos sem uma base adequada de capital próprio nos bancos. Ao mesmo tempo não descuidamos de, ao privatizar, ampliar a concorrência e manter ativos os instrumentos públicos de crédito no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e no Banco do Brasil, tornando-os aptos a reestruturar empresas nacionais ou localizadas no país. Ao lado disso, desde 1994 até hoje, os diferentes governos sustentaram um aumento constante do salário mínimo real e, a partir de 2000, foi possível criar uma rede de proteção social, da qual as Bolsas Família, iniciadas com nomes diferentes, se tornaram símbolo de inclusão social, diminuindo a pobreza e reduzindo um pouco as desigualdades.

Pela primeira vez, os países mais desenvolvidos sentem as consequências da falta de regulação do sistema financeiro. Olhando agora o que ocorre na economia global deparamo-nos com uma situação incerta. A regulação financeira proposta nas reuniões do G-20 encontra dificuldades para se efetivar dada a diversidade de interesses nacionais. Cada banco central opera como melhor lhe parece. O Fed inunda os Estados Unidos e o mundo com dólares e faz operações típicas de bancos comerciais sem se preocupar com a ortodoxia. Os responsáveis pelos desmandos financeiros não são punidos, recebem bônus (ao contrário do que ocorreu com o programa brasileiro de saneamento do sistema financeiro, que puniu os banqueiros) e o desemprego não cede porque não há consumo nem investimento. O Banco Central Europeu e o FMI exigem dos países em bancarrota virtual sacrifícios fiscais que impossibilitam a retomada do crescimento e, portanto, a volta à normalidade. As taxas de juros se mantêm próximas de zero, sem previsão de mudança, e as economias não reagem. Na Europa cada país faz a política fiscal que deseja, não há mecanismos de unificação. O desemprego e o mal-estar político minam esses países, e a ameaça de default é seu parceiro constante.

Desse quadro escapam as economias emergentes, China à frente de todas. Até quando? É óbvio que uma recessão prolongada ou uma grande contração, como diz Kenneth Rogoff, transmitirá às economias emergentes seus maus fluídos pelo conduto do comércio internacional. É preciso, antes que isso ocorra e o desastre seja maior, que haja um entendimento global. Este deveria partir do reconhecimento de que as dívidas de alguns dos países europeus são impagáveis. Com o nome de reestruturação ou outro qualquer, à la Brady, é preciso aliviar já a situação da Grécia, de Portugal e eventualmente da Espanha e da Itália. Suas dívidas internas e externas e a penúria de seus bancos cheios de títulos de qualidade desconhecida não lhes dão alternativas de retomada do crescimento sem uma redução substancial dos valores de seus passivos.

Não haverá condições político-morais para proceder a tais reestruturações sem, ao mesmo tempo, distribuir melhor o custo da “socialização das perdas”. O grito de Warren Buffet, seguido por milionários de outros países, mostra o descalabro do Tea Party ao querer impor mais ônus aos mais pobres, com responsabilidade zero na crise. Por fim ou o euro se derrete pela falta de unificação fiscal, ou esta se faz, ou a União Europeia se encolhe, autorizando alguns de seus membros a desvalorizar e usar outra vez uma moeda nacional.

Nada disso pode ser feito sem lideranças políticas fortes, dispostas a redistribuir o poder global e reorganizar suas bases decisórias. Terão força para tanto? Eis o enigma.

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Curitiba recebeu seminário Brasil em Desenvolvimento

agosto 30, 2011

Do site do IPEA

Ipea encerrou na capital paranaense, nesta segunda-feira (29), a primeira fase do ciclo de debates

Com lançamento de publicações e debates sobre temas variados – de cooperação federativa a mudanças climáticas –, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em parceria com o Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) e apoio da FAE Centro Universitário, promoveu nesta segunda-feira (29), em Curitiba (PR), a última etapa do seminário Brasil em Desenvolvimento.

O evento encerra um ciclo de debates que se iniciou em Brasília, em maio, e passou por Recife, Goiânia, São Paulo e Belém, contemplando todas as macrorregiões do país na divulgação dos trabalhos do Ipea e de seus parceiros e tendo como pano de fundo a publicação Brasil em Desenvolvimento: Estado, Planejamento e Políticas Públicas, estudo que envolveu 120 técnicos do Instituto e traz análises de políticas públicas.

Durante a abertura, a cargo do presidente do Ipea, Marcio Pochmann, e do diretor-presidente do Ipardes, Gilmar Lourenço, foi destacada a importância da cooperação entre as entidades para a produção de estudos para o debate nacional e regional. “Há um esforço por parte do Ipea para deixar de ser uma instituição de apoio ao governo federal para se tornar uma instituição de apoio à produção de conhecimento ao Estado brasileiro como um todo”, afirmou Pochmann.

Segundo ele, o apoio às instituições nos estados, por meio da Rede Ipea/Anipes (Associação Nacional de Instituições de Pesquisa), gera conhecimento com resultados superiores, além de trazer o benefício da formação de quadros.

Debates da manhã
Com mediação da pesquisadora do Ipardes Rosa Moura, houve apresentação da palestra As negociações internacionais sobre mudanças climáticas: avanços recentes e o papel brasileiro, da técnica de Planejamento e Pesquisa do Ipea Maria Bernadete Gutierrez, com comentários do pesquisador do Ipardes Oduvaldo Bessa Júnior.

Em seguida, o assessor-chefe de Planejamento e Articulação Institucional do Ipea, Aristides Monteiro Neto, falou sobre o escopo do trabalho Brasil em Desenvolvimento. “É um documento que guarda um olhar sobre a conjuntura, sobre o momento, mas não diz coisas efêmeras. Traz os temas da vez, uma reflexão sobre e para as políticas públicas, mas analisadas como processos mais longos.”

O diretor-adjunto de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia do Ipea, Antonio Lassance, ministrou a palestra Cooperação federativa: a formação de consórcios públicos no Brasil, com comentários da pesquisadora do Ipardes Maria Luiza Dias, que contribuiu com um panorama do quadro de consórcios paranaense.

Encerrando os debates da manhã, a bolsista do Proredes-Ipea Lorreine Vaccari apresentou o painel Aglomerações transfronteiriças no Sul do Brasil, estudo que busca desmistificar as áreas de fronteira como zonas problemáticas e apresentá-las como espaços sinérgicos para o desenvolvimento e a integração. Os comentários ficaram por conta do diretor-adjunto de Estudos e Políticas Regionais, Urbanas e Ambientais do Ipea Miguel Matteo.

Debates da tarde
Na abertura dos trabalhos da tarde, o técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea Marco Aurélio Costa fez a apresentação Rede Ipea-Anipes: fortalecendo o planejamento para o desenvolvimento. Segundo Costa, a parceria entre diferentes atores e instituições possibilita alcançar diferentes pontos do imenso território do País, dando maior capilaridade às pesquisas conjuntas.

Houve também o lançamento dos livros Gestão Municipal no Brasil – com palestra da pesquisadora do Ipardes Nádia Raggio, Fortalecimento institucional e qualificação da gestão municipal – e Infraestrutura Social e Urbana no Brasil e Dinâmica Urbano-Regional, com apresentação do técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea Bolívar Pêgo.

As pesquisadoras do Ipardes Isabel Barion e Rosa Moura ainda fizeram, respectivamente, as apresentações Paraná: dinâmica urbano-regional do Estado e Cidades médias e cidades de fronteira, abordando a questão das concentrações urbanas e da necessidade de um país policêntrico. Os comentários ficaram a cargo da professora Liana Carleial (UFPR e FAE).

Veja aqui a apresentação Brasil em Desenvolvimento

Veja aqui a apresentação Cooperação federativa

Veja aqui a apresentação Aglomerações Transfronteiriças

Veja aqui a apresentação Paraná: dinâmica urbana

Ipea recebe propostas de trabalhos para a II Code

agosto 30, 2011

Interessados podem enviar artigos até 18 de setembro. Acesse o hotsite e saiba mais sobre a chamada

Professores, pesquisadores e estudantes têm até o dia 18 de setembro para enviar propostas de trabalhos para a II Conferência do Desenvolvimento (Code), que será realizada na Esplanada dos Ministérios, em Brasília (DF), entre os dias 23 e 25 de novembro. Os trabalhos devem ter relação com uma das 11 áreas temáticas, definidas pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com as associações brasileiras de pós-graduação da área de humanidades (ABA, ABEPSS, ANPEC, ANPED, ANPOCS, ANPUH, Anpur, Compedi, Intercom, SBS e ABPC).

A Code é uma conferência que reúne os mais diversos setores da sociedade, autoridades públicas e grandes especialistas para debater temas ligados ao desenvolvimento brasileiro. “O Ipea quer fomentar um debate sobre o desenvolvimento com caráter multidisciplinar, produzindo estudos variados podemos melhor assessorar o Estado em suas políticas públicas”, afirmou Aristides Monteiro, assessor-chefe de Planejamento do Ipea, durante a solenidade de lançamento da chamada de trabalhos.

Serão escolhidos de 200 a 300 artigos para a Conferência. As comissões avaliadoras em cada área temática são compostas por membros das respectivas associações de pós-graduação e técnicos do Ipea. Cada autor poderá enviar apenas um trabalho e a seleção será feita pelo sistema blind review, preservando-se o anonimato da proposta. Detalhes sobre o formato de envio dos trabalhos e informações sobre as áreas temáticas podem ser consultadas no hotsite da chamada de trabalhos (www.ipea.gov.br/code/chamada2011).

Acesse o hotsite da Chamada de Trabalhos para a II Conferência do Desenvolvimento