Archive for the ‘Comportamentos’ Category

A neuroeconomia e o “Admirável Mundo Novo”

dezembro 15, 2011

O caderno Cultura & Estilo da última sexta-feira (09/12) publicou densa reportagem sobre e economia comportamental, ou melhor,”neuroeconomia”, como querem os mais entusiastas. A despeito da capacidade da nova ciência propor mudanças significativas em termos macroeconômicos, é interessante observar os avanços e reflexões acerca dos limites e expectativas do individualismo metodológico, onde antigas premissas são falseadas à medida que avançam as descobertas sobre o cérebro humano.

Vale destacar algumas “catadas” da reportagem de Diego Viana:

“Os neuroeconomistas buscam entender as consequências desse tratamento do dinheiro. Ao descobrir que mesmo em pessoas com perfis muito diferentes o dinheiro acionava os mesmos mecanismos de busca e aversão ao risco, o laboratório de Paul Glimcher, em Nova York, tentou descobrir que tipo de relação uma pessoa manteria com o dinheiro quando estivesse com muita fome. “O mais interessante é que a fome faz com que as pessoas, por mais diferentes que sejam suas atitudes normalmente com relação ao risco, se tornem mais ou menos iguais. Elas convergem para uma aversão moderada ao risco”, diz Glimcher. “Pensamos: isso deve ter implicações macroeconômicas! Precisamos encontrar algum mercado em que a variação do nível de fome seja variável para ver o que acontece.”

“Um dos membros do laboratório é árabe”, relata o pesquisador. “Foi ele quem sugeriu observar o que acontece com as bolsas dos países do Oriente Médio durante o Ramadã.” No Ramadã, mês sagrado da religião muçulmana, os fiéis passam todo o dia, do amanhecer até o pôr do sol, sem comer. Ao se debruçar sobre os dados tirados das negociações no período, os neuroeconomistas se depararam com um fenômeno conhecido como “efeito Ramadã”.

Mais adiante:

Embora concorde que é preciso ter cuidado ao aproximar campos distintos, Glimcher considera que o namoro da neurologia com a economia pode produzir um rebento saudável. Ele lembra do surgimento da teoria das ondas, de Werner Schödinger, que fundiu a física e a química – “hoje, as duas ciências são mais confiáveis e robustas” – e do surgimento da bioquímica – “os biólogos diziam que seria impossível explicar qualquer fenômeno biológico com o DNA, mas hoje a biologia é pura genética”.

De fato, perquirir sobre o que induz o indivíduo a se comportar desta ou daquela forma é um instrumento poderoso para desenhar incentivos. Por outro lado, induzir comportamentos, em especial, ceder à tentação de pré-condicionar biologicamente e psicologicamente pessoas, a fim de induzi-las a viver em harmonia com as leis e regras sociais, poderá, fatalmente, conduzir a humanidade ao “Admirável Mundo Novo”, Aldous Huxley que o diga!

Por @victorhugodom

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Viés, otimismo e comportamento

junho 7, 2011

Em psicologia comportamental o viés de super-otimismo demonstra a tendência sistemática para ser demasiadamente confiante em relação ao resultado das ações planejadas. No contexto econômico explica por vezes inúmeras  e equivocadas decisões sobre as previsões de mercado, que terminam em falências, quebras na bolsa e comprometimento do patrimônio particular. Não raras vezes, as decisões tomadas em contextos de elevado otimismo acabam por findar em problemas jurídicos.

Recentemente o Brasil obteve o honroso 4º lugar entre os países mais otimistas em relação ao emprego em 2011. Segundo o site Administradores, O estudo International Business Report 2011 revela que o indicador brasileiro foi de +47%, perdendo apenas para a Índia (+64%), Turquia (+60%) e Vietnã (+57%). Com este indicador, o otimismo do Brasil está bem acima da média global, que é de +19. O levantamento foi realizado com mais de 11 mil empresas de 39 países. (para ler a matéria completa clique aqui)

Se as pessoas imaginam certa disponibilidade de renda, e uma duradoura possibilidade de obter facilmente emprego, o consumo de produtos duráveis a longo prazo, e o aumento do endividamento familiar são conseqüências naturalmente presumíveis ao mais leigo analista social. Todavia, em macroeconomia, os efeitos do super-otimismo são ainda pouco relacionados ao impacto jurídico desta “coletiva” sensação de bem-estar, e por vezes mesmo contraditórios.

Tome-se o exemplo do levantamento realizado pelo Índice de Expectativa das Famílias – IEF, elaborado trimestralmente pelo IPEA. O último relatório (n.º 9) demonstrou que 88,08% das famílias da região norte afirmam gozar de uma situação de segurança ante a ocupação do responsável pelo domicílio. De forma contraditório, no mesmo estudo 54% das famílias da região norte afirmaram que não terão condições de pagar as contas atrasadas, simplesmente o maior índice de todas as regiões do país. Nota-se, portanto, não somente um forte viés de super-otimismo, como também um grave distúrbio financeiro. No caso das famílias da região norte, a sensação de segurança não se relaciona com o pagamento dos débitos em atrasos, o que desembocará, sem dúvida, em ações judiciais das mais diversas naturezas, sem contar o efeito econômico da inadimplência em larga escala.

Otimismo e entusiasmo afetam sobremaneira o comportamento das pessoas, mas nem sempre para o melhor. Já dizia Jorge Bem: Prudência e dinheiro no bolso, canja de galinha não faz mal a ninguém.

Por @victorhugodom