Um erro leva a outro

Por Diogo R. Costa

Publicado na Gazeta do Povo de 03/08/2011

Por achar que o Brasil es­­­tá em guerra econômica com o mundo, o governo tenta nos “proteger” dos be­­ne­fícios da glo­baliza­ção. Os vencedores do jo­­go pro­te­cionista são fá­­ceis de apontar: são os escolhidos do governo. Como resul­tado, os brasi­leiros têm de pa­­gar mais caro por pro­du­tos com menor varie­dade e/ou qualidade.

Quando o pacote anunciado é reduzido a uma manchete, a notícia parece boa. Redu­ção de impostos e desoneração de folha de pagamento são políticas saudáveis para uma economia considerada pelo Fórum Econômico Mun­dial como tendo as piores regulamentações e o sistema tributário mais nocivo.

Mas, quando se descobre o que compreende o pacote de política industrial, vemos que grande parte da legislação se inspira na velha mistura de protecionismo e privilégios. Setores como transportes, materiais de construção, confecções, móveis e software podem sair ganhando com subsídios e medidas protecionistas. Já consumidores e setores que dependem de importações perdem com a expectativa de regulamentações e tarifas mais onerosas.

O governo tenta justificar essa política industrial com a retórica do nacionalismo econômico. Dilma Rousseff chegou a negar que sua política seja protecionista, mas se “proteger nossa economia” contra a “avalanche de manufaturados que chegam do mercado internacional” não é protecionismo, estou lendo os economistas errados.

A intenção da presidente pode ser boa, mas cai inevitavelmente na falácia da competitividade nacional. Países não são empresas em disputa pelo mesmo setor. O Brasil não fica mais pobre quando o Chile fica mais rico.

Um erro leva a outro. Por achar que o Brasil está em guerra econômica com o mundo, o governo tenta nos “proteger” dos benefícios da globalização. Se a possibilidade de aumentar nosso consumo é “predatória”, peço à presidente Rousseff e ao ministro Pimentel que, por favor, depredem minha casa à vontade.

Os vencedores do jogo protecionista são fáceis de apontar: são os escolhidos do governo. As distorções geradas, as oportunidades econômicas perdidas e o aumento na qualidade de vida desperdiçado é que ficam inaudíveis no discurso político. Como resultado, os brasileiros têm de pagar mais caro por produtos com menor variedade e/ou qualidade.

O governo está correto em querer desonerar a produção nacional, mas seus erros ideológicos podem provocar mais erros que acertos. A próxima vez que o governo anunciar uma lista de presentes à indústria, peça a ele para mostrar também a lista de quem está pagando a conta.

Diogo G. R. Costa é mestre em Ciência Política pela Universidade de Columbia e professor de relações internacionais no Ibmec-BH

Uma resposta to “Um erro leva a outro”

  1. Eduardo Garcia Says:

    Existem questões econômicas por trás destas ações. Questões estas que não estão sendo atacadas; final das indexações de produtos monitorados, acabar com a remuneração de curto prazo de aplicações pela SELIC, acertar o câmbio e a redução da taxa de juros a níveis compatíveis com os demais países com condições econômicas semelhantes ao Brasil.

    Leva-se tempo para fazer estas mudanças de rumo, mas não há sinalização neste sentido. Sem isso, continuaremos enxugando gelo e fazendo planos “industriais” que são paliativos ao real problema.

    Existe uma grande distância entre as condições de produção do Brasil e os demais países, por conta, principalmente, dos pontos citados acima, e as ações significam proteção aos empregos de muitos brasileiros.

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