Papel do Estado no Brasil preocupa analistas externos

Fernando Dantas – O Estado de S.Paulo

RIO
O Brasil, que está em forte alta em termos de imagem externa e é visto como uma das economias emergentes mais dinâmicas e promissoras, vem também sofrendo críticas em artigos recentes na imprensa internacional. Alguns observadores externos parecem estar finalmente incorporando às suas análises as preocupações que uma corrente de analistas brasileiros já vem manifestando há mais tempo.

Para o economista Marcio Garcia, da PUC-Rio, “finalmente as pessoas lá fora estão se dando conta de que a estratégia brasileira, mesmo tendo muitas virtudes, tem também vários problemas”. Resumidamente, a visão crítica – típica da corrente mais ortodoxa de economistas – é a de que o governo Lula se direciona gradativamente para um modelo de maior intervenção estatal, e interrompeu o processo de reformas liberalizantes, como a trabalhista e a previdenciária.

Em recente artigo, intitulado “Apaixonando-se de novo pelo Estado”, a revista britânica The Economist escreve que o sucesso da política anticíclica do Brasil, que tirou o País rapidamente da recessão, levou o governo – e a candidata a presidente, Dilma Rousseff – a renovar sua crença no papel do Estado.

A Economist critica aquela postura, embora reconheça que o papel dos bancos estatais na expansão do crédito tenha sido importante para tirar o Brasil da crise. Para a revista, “a pressa em reinventar estatais ignora o sucesso da privatização”.

Garcia concorda com a crítica, e acrescenta: “O fato de se ter jogado água para apagar o fogo na crise não quer dizer que você deva continuar jogando água depois que o fogo foi apagado”.

De forma bem mais severa, Mary Anastasia O”Grady, articulista do Wall Street Journal, pede a seus leitores que “contenham o entusiasmo com o Brasil”. Para ela, o único mérito do governo Lula é não ter desfeito as conquistas de Fernando Henrique no campo fiscal e de combate à inflação. Segundo O”Grady, o Brasil “abandonou mesmo as reformas mais modestas”, e tem um arcabouço regulatório e fiscal que estrangula pequenas e médias empresas,, só permitindo a sobrevivência de magnatas bem conectados como o bilionário Eike Batista (cuja capacidade empresarial ela reconhece).

Mas há economistas brasileiros que defendem a guinada da política econômica para uma direção menos liberal, e consideram que as críticas do exterior são equivocadas e podem representar interesses. Ricardo Carneiro, da Unicamp, acha que as reformas que os críticos externos defendem, como flexibilização do mercado de trabalho e redução da carga tributária, estão ligadas ao Consenso de Washington na sua segunda versão.

Ele pergunta provocativamente: “Onde isso produziu bons resultados?” Carneiro reconhece que o Chile seria um caso, mas considera o único, e mesmo assim mesclado com aspectos menos liberais de política econômica (como intervenções no câmbio) que são menos conhecidos.

Para o economista, é possível que as publicações nas quais saíram os artigos críticos estejam se posicionando em favor de grandes interesses privados.

Sob fogo cruzado
MARY ANASTASIA O”GRADY
WALL STREET JOURNAL

“O Brasil abandonou mesmo as reformas mais modestas”
THE ECONOMIST
JORNAL BRITÂNICO

“A pressa em reinventar estatais ignora o sucesso da privatização”
RICARDO CARNEIRO
ECONOMISTA DA UNICAMP
“Onde o liberalismo produziu bons resultados?”

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